Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

SEINFELD BAIXOU EM MIM.

 

 Ouçam enquanto leem


Um casal amigo perdeu as chaves do carro. Isso foi constatado após um delicioso café na Praia do Canto, beirando as dez da noite. Pânico. Como o casal mora além terceira ponte nada mais poderia fazer do que eu oferecer uma turnê ida e vinda sobre o Atlântico, recuperar a chave reserva e salvaguardar o carro zerinho mal estacionado. Final feliz.


Dia seguinte o casal telefona para convidar para um almoço de agradecimento pela reles gentileza. Ok, pensei. Mas depois me apavorei. Descia sobre mim um personagem da série Seinfield da Sony: George Constanza. Deu paranoia.


George Constanza, para quem não o conhece essa genial série Seinfeld, de Larry David, é um paranoico, pão duro e mau caráter A carga do personagem sobre mim apavorou-me. Logo eu? Por que esse pânico gratuito? Passei a deslumbrar uma futura retribuição. Por que me convidaram para um almoço por conta de uma simples carona? Tenho que retribuir, claro. Aí fiquei em dúvida se deveria aceitar ou fazer o tal doce. Aceitei sob protestos, como o faria Constanza. Nunca mais dou carona, pensei. De repente retribuiria com outro almoço. Aí o ciclo não teria fim. Almoço pra cá, almoço pra lá, uma conta sem fim. Até me imaginei colaborando no roteiro de uma episódio sobre essa turma cujo final seria o Constanza não comparecendo ao almoço e depois arrependendo-se pois, o prato principal do convite era o seu favorito. Confesso que rezei pro meu santo de devoção para me livrar desse mal, dessa baixada de santo esquisita. Vade retro Seinfeld.


Bem, o almoço foi delicioso e a companhia super agradável.Nas despedidas já exorcizado o fantasma de Constanza, agradeci muito a excelente tarde. Então o casal sentenciou: você pode retribuir com um almoçozinho na sua casa, com um camarão por exemplo que você tão bem sabe fazer.


Voltei para casa e acendi uma vela.
_____________________________________________________________
Estamos também em www.blogdonoleari.blogspot.com e www.cadernosete.com.br

VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA SONORA.

                        Quem São Nossos Heróis Sonoros ?



                                                                                                                               Rogério Coimbra.

A partir de uma crônica de Oleari em A Gazeta, nosso bom guitarrista Victor Biassutti escreveu ao capo e o mesmo transcreveu a missiva para o jornal: era uma resposta a essa crônica queixosa em relação à invasão da chamada música sertaneja de universitário, ou, breganeja, nos bares da Praia do Canto e adjacências.
.

Diante o alerta sem esperança de Oleari, Biassutti ergueu armas e partiu para defesa de caminhos alternativos os quais, de certa forma, podem funcionar como ferramenta de persuasão junto aos que alimentam essa cultura “breganeja”, ou também o “bregode” (pagode brega).

No fundo falta informação, educação a essa turma que se alimenta musicalmente de inopiosos nutrientes para a alma. Músicas fracas, letras frágeis, que se diluem com o tempo e, inevitavelmente, deixa a turma com um quero mais apenas para sentir o tum-tum-tum motórico da música como se fossem primitivos, os menos dotados da sociedade. Pobres universitários ou vestibulandos de mau gosto.

Assim como acerta seus acordes na guitarra, Biassutti acerta em levantar a bola da turma que está produzindo um material de qualidade e que pode até servir como remédio para recuperação desses pobres de espírito. Não estão todos no mesmo espaço social? Não são vizinhos nessa elegante área de lazer? Por que só se fazem ouvir os medíocres?

Ao indicar nomes como o de Oleari, Tarcisio Faustini, Marien Calixte, Edu Henning, Salsa, e o seu próprio implícito, como incentivadores, além dos inúmeros músicos e intérpretes, verdadeiros atores dessa guerra, veio-me a sensação é que eles são os nossos Voluntários da Pátria Sonora. Permito-me entrar no jogo como, digamos, um correspondente de guerra, observando as ações no front.

Eu mesmo fui seriamente ferido. Tinha o hábito  nas noites dos domingos fantasmagóricos de Vitória saborear mariscos num restaurante perto do canal do Rio Marinho. Brisa do mar, cheiro marinho. Fui escorraçado da área pois, no bar ao lado, passou a ter música sertaneja universitária ao vivo e num volume insuportável. Como saborear crustáceos ao som de uma música que cheira a cocô de boi no pasto?

A luta continua. Certamente a boa música vai derrotar a má música. Confio nos Voluntários da Pátria Sonora para varrerem o lixo cultural das calçadas da minha querida Praia do Canto.

Estamos também no www.bloguidonoleari.blogspot.com e www.cadernosete.com.br

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

DOMINGO VIROU SÁBADO.





Escutem Rogério Borges cantando Pedro Caetano enquanto leem.




Domingo Virou Sábado.


                                                Rogério Coimbra.


A queixa é recorrente: Vitória é uma cidade fantasma aos domingos, parte porque sua pequena população procura as praias, ou então permanece em suas casas. A razão é o comércio fechado, e não há circulação de pessoas nas ruas. Não me surpreendeu a notícia de que a escritora Jeanne Bilich tenha sido assaltada na Praia do Canto numa manhã de domingo. Ela relatou o fato numa crônica e que saiu contrariando a si mesma pois era norma sua nunca sair aos domingos.

Acredito que o sábado está substituindo o domingo em Vitória: agora a semana do capixaba tem seis dias.

Estou em 1965, em Vitória. Oscar Neiva, emérito boêmio dos anos 50, abriu uma boate chamada Cave,em frente aos cinemas Vitorinha e Odeon, na avenida Capixaba. Como bom provinciano imitando o Little Club do Beco das Garrafas do Rio, onde havia matinê de jazz para os menores e idade, promovi por muitas semanas matinês na Cave. Carregava aquela tonelada de LPs sob os braços e tinha o prazer de ouvi-los numa amplificação profissional. Aos domingos tínhamos também as famosas domingueiras dos clubes Vitória e Álvares Cabral.

Hoje, aos domingos, impera a sensação que os marcianos estão chegando e todos estão abrigados nos shoppings. Por sua vez, os sábados têm sido animados, com cara de domingo Somente no Bar Maravilha na esquina de Rio Branco com Chapot Prevost, há dois shows: um instrumental, às 17 hs e outro vocal, às 20 hs. No mais recente encontrei mais uma vez meu guitarrista preferido,  de base firme, Victor Biasutti, amenizando o calor das tardes  com seus acordes, dessa vez com  o soprador Salsa e o confrade de cordas Pedro Oleare. Eles iam emendar com a cantora Marcela Lobo. E alguns combinavam outras alternativas de programas para aquele sábado. Lembrei do vídeo que está circulando no You Toobe com Kátia Rocha cantando à mesma hora, no mesmo lugar, porém ela na calçada com seu cãozinho. Tempo encerrado, conta paga, voltei para casa. No meu retorno vejo a Kátia de novo com seu cãozinho circulando na redondeza. Indaguei-me se ela cantaria de novo na calçada. Mas com a Marcela Lobo lá? Vai, nada, pensei, isso é briga de cantora grande. Fui dormir para acordar na segunda-feira, pois o domingo não existe, a gente pula. Nossa semana agora tem seis dias. Será que a gente vai viver menos?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

AS 7 MARAVILHAS DA MÚSICA.

1 – Ritmo.
O ritmo é a música em si. É a ordenação do movimento, é a pulsação da música, é o intervalo que se estabelece entre um batimento e outro; sem ritmo não há música. Ritmo é matemática e na música ele se define pelos compassos que define como a música caminha, qual a batida forte, qual a batida secundária, qual padrão, qual modelo a ser adotado por uma determinada música. Cada cultura adota uma postura para trabalhar o ritmo. A cultura ocidental é mais rígida, mais exata, com divisões como 2 por 2, 2 por 4, 4 por 4, 3 por 4, 6 por 8 e por aí vai. Por sua vez a cultura oriental usa ritmos mais complexos, cruzados, com marcações de 7 batidas ou 13, num indo e vindo de sugestões. A música africana é a rainha da polirritmia e que veio influenciar profundamente a música de todas as Américas, dos EUA ao Brasil, passando por Cuba, além de contribuir para pesquisas no campo da chamada música clássica através de nomes como Stravinsky, Béla Bártok, Ligeti, entre outros, desorganizando qualquer padrão rítmico, mas, ao mesmo tempo, reorganizando-os.


2 – Melodia.
A melodia está no canto dos pássaros. Na música ocidental existem sete notas e mais cinco notas “acidentais”, os bemóis e os sustenidos, criando a escala de doze sons. É a linha principal de uma música com variações de altura, podendo ser um som alto, agudo, médio, ou baixo, grave. O ritmo determina como ela caminha e só pode faze-lo sobre um trajeto bem construído, em consonância com a terceira maravilha, a harmonia. A melodia pode ser bem temperada como assim organizou Bach, com frequências sonoras padronizadas, o que determina a tonalidade ou pode ser subvertida a partir dos revolucionários Schoenberg, Berg, Webern, Messiaen, isso na primeira metade do século XX, tornando a melodia partida, curta, apressada, sem tonalidade.


3- Harmonia.
Enquanto o ritmo e a melodia caminham, sob eles há um conjunto de notas que determinam a harmonia, uma simetria de sons, ordeira, que são os acordes da harmonia, ou seja, os sons estão de acordo com a melodia. Caso contrário poderia soar “desafinado”. Mas esse conceito do belo, de uma estética romântica também foi rompido no início do século XX com os compositores acima citados e diferenciada pela música impressionista de Debussy, Ravel e Satie, com um sistema de modos diversos para acompanhar a melodia, como já faziam os antigos, como os gregos.


4- Composição.
É a reunião das três primeiras maravilhas. É a criação do homem, a verve iluminada pelo divino, como pode ser uma fria coordenação de elementos fiscos e matemáticos. É a obra musical.


5 – Execução.
Relaciona-se à habilidade humana, a técnica de efetivar a obra musical, valorizando-se pelo lado emocional explorado pelo instrumentista. É o sentimento, o feeling, a prospecção da alma daquele que é o objetivo da criação e execução da música: o ouvinte.


6 – Audição.
Empatia. Pronto, fechou-se o ciclo. Salas de concertos repletas de ouvintes aplaudindo de pé ao final da execução de uma obra. Gravações de discos que vendem milhões. Aprovação da composição e da interpretação. O sistema aciona o feedback e a música continua, com todas a suas maravilhas a suavizar, ou revolucionar o mundo.


7- O silêncio.
É a maior de todas maravilhas. Nos anos 1950 o compositor norte americano John Cage apresentou uma peça para piano intitulada 4´33, no Carnegie Hall. Foi um silêncio total durante 4m33s, ele diante do piano, estático e o único ruído que se ouvia era o virar das folhas da partitura. O silêncio nos faz escutar nossa música interior. Ouvidos atentos no silêncio acumulam a (des) harmonia do cotidiano, da natureza, o próprio caminhar da vida.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

RESISTÊNCIA.

Rogério Coimbra.

Claro que a Resistência, a maior das resistências foi a francesa aos ocupantes em seu pais. Refiro-me aqui às resistências e mudanças de atitudes, comportamentos, praticadas por bons amigos meus. Semana passada escrevi sobre minha Fada Madrinha, Beatriz Abaurre. Comuniquei-lhe o fato através de um simples telefonema. Ela então me disse que não tinha internet e que eu deveria mandar-lhe uma cópia via postal. Correios? Onde fica isso? Depois de muito desentendimento ela conseguiu passar-me o e-mail do neto. Tentei mas voltou. Para não mais incomodar, imprimi o texto, a cópia da mensagem de failured, e resolvi seguir o conselho da madrinha, já a essa altura, sem o título de fada, apenas uma mortal madrinha: mandar uma cópia via postal.
Descobri que não tinha envelope, apenas um daqueles enormes. Como deduzi que seria um desperdício, fui a uma papelaria comprar aqueles envelopes tradicionais. Surpreendeu-me que não mais faziam daqueles com enfeite verde e amarelo nas bordas. Em casa, tive dificuldade de dobrar três folhas papel ofício, para fechar o troço. Nem que tivesse cuspe ainda daria para vedar a correspondência. E a cola? Teria que voltar à papelaria pra adquiri-la. Usei o grampeador, única ferramenta do passado que utilizo para literalmente grampear minhas contas e comprovantes d e pagamento. Todo esse drama por um simples ato de resistência da minha mortal madrinha. Agora ela já não me é tão fada, mágica, apenas uma simples madrinha. Por que as pessoas resistem tanto às mudanças?
Participo de uma confraria cujos confrades discutem os caminhos do jazz, mas ao mesmo tempo resistem caminhar por novas trilhas. Percebi isso agora. Para eles, jazz, só o praticado antes dos anos cinqüenta; então não sei qual caminho se discute- tá tudo bloqueado. O presidente, meu amigo Ronaldo, só há pouco mais de dois anos passou a usar relógio de pulso e, para espanto de todos, no braço direito. Os mais conservadores o alertaram, mas não houve jeito. Celular também foi outra ferramenta por ele adotada há pouco mais de um ano, mas, não sabia usar. Os confrades concluíram que isso era coisa de mulher, a dele, claro. Também anda agora com uma mochila tal qual um ginasial e que ninguém se atreve perguntar o que ele carrega na dita cuja. Tem carro, mas não dirige. O outro, Joãozinho também tem carro, mas não dirige. Liguei para ele há um mês e sua esposa atendeu e comunicou sarcasticamente que ele havia saído, para fazer a revisão do carro. O outro, Xico Bento, tem um Gol 82 que não sai mais da garagem porque está mal das rodas; como ele mora numa pirambeira do Barro Vermelho, não sai ele, nem o carro. Há sempre um Cristo para buscá-lo para as reuniões, e supermercados. Celular, internet, nem sonhando. Seu grande avanço foi um PhilipsShave para barbear-se trazido por um piloto da Pan American. Comprou um home theater só para ouvir música em formato de DVD que o confrade Gummer produz. Esse é outro resistente que não vai a casamento, batizado e nem a enterro de ninguém porque não abre mão de seu traje oficial: bermuda, chinelo e camiseta regata. Agora agüentem: foi-me revelado que o Gummer foi ao aniversário do Paixão, de calça comprida e camisa social e, quem lá parece? Nada menos do que o doutor cais do porto de bermuda, chinelo e camiseta. Além dos comentários maldosos, Gummer, envergonhado, tentou afogar-se num mínimo cálice de vinho do Porto.
Querem mais resistentes? Vamos lá: Mr. Young, o enciclopédico do grupo, não abre mão de seu figurino em cores azul e preto além de detestar congo e a música Over The Rainbow. Tem mais. O irmão do presidente, Joazão só ouve vinil e provavelmente sustenta Golias e seu sebo na avenida Capichaba,como ele faz questão de chamar a atual Jerônimo Monteiro, e com ch mesmo. Também o confrade Paulo, escritor, que abandonou a cachaça e a escrita por uma filmadora: vive nas tertúlias buscando o melhor close de meninas nas platéias; pior que nesses eventos só dá marmanjo, e marmanjo Pink. Resistente também é o Pedro Telemar que decidiu manter o roteiro Vila Velha – Vitória de 30 anos atrás. Esqueceu-se da Terceira Ponte e desceu a av. Champagnat na contra mão, enfiou-se pela Glória e por aí veio, como se o prefeito ainda fosse Américo Bernades com Tuffy Nader dando seus pitacos.
Ainda tem o Paixão aos 85 anos; chamá-lo de resistente seria eufemismo, mas, adora Rosemary Clooney, não tem celular, internet e ainda usa seus bonés e casacos que trouxe dos EUA quando lá morou na década de 40. Pelo menos não resistiu ao charme e pernas de Diane Krall. Tem outro, Fernandel, proprietário de um Gol 0 KM mas que não resistiu e manteve a sua velha Paraty de 1985 calada em sua segunda vaga de garagem de seu edifício.Talvez seu único ato contemporâneo foi o de ir à Argolas para uma vernissage vanguardista de Ronaldo Barbosa, no Museu Ferroviário. Apaixonou-se.
Mas porque tanta baboseira? Deve ser pela resistência constante e progressiva das pessoas e também minha, por que não? Não resisti e localizei via internet uma agência dos Correios e postei a crônica para a minha madrinha Beatriz: custou-me setenta centavos e também um pouco do meu humor. Em tempo: uma das minhas resistências é tomar vinho, o que me assusta por vir a ser rejeitado pelo meu Blogueiro chefe, enólogo, diga-se de passagem.
Agora um conselho: a essa altura da vida, sejamos mais tolerantes, senão fica tudo muito chato.

ANONIMATO.

ANONIMATO.
Rogério Coimbra.

Vagueio anônimo pelas ruas do Rio. Já tenho na verdade em Laranjeiras, onde me alojo, alguns conhecidos, como se diz, de vista, ou de papo rápido, os quais são por mim cumprimentados ao por eles cruzar: seja ambulante, porteiro, vizinho, morador de rua, como a Da. Norma que reside sob o viaduto Santa Bárbara ou tradicionais “copistas” que sobram na rua pelas portas dos botequins e, quando a eles adentro, sou um bom confessor como ocorre em qualquer bar do mundo.

Então não sou tão anônimo assim, apenas meio manjado, como não o sou definitivamente na minha Grande Praia do Canto, que vai do canal de Camburi à Avenida Leitão da Silva. Anônimo sou em Jardim da Penha, Jardim Camburi e Praia da Costa.
Hoje o anonimato predomina em certos espaços os quais frequento.

Assisti a uma peça de teatro na Ufes, onde havia 600 espectadores e, depois de observar a longa fila e percorrer o olhar sob a platéia, eu, capixabão da gema, só identifiquei um conhecido: o Professor Arlindo Villaschi. Ele riu quando comentei esse fato e ainda mais sobre o meu espanto quando uso a ponte aérea Vitória - Rio, pelo menos uma vez por mês: não identifico mais ninguém no aeroporto ou no meu vôo.

Estranha sensação, diferente da de anos atrás quando todos se saudavam ou pelo menos sorriam ou acenavam. Estará minha geração indo embora? Agora ficamos nós desconhecidos na sala de embarque, um olhando para a cara do outro com cara de bunda, isso quando a metade não está com a cara enfiada em seus laptops, fazendo não sei o quê, haja visto não haver Wi Fi nos aeroportos e a autonomia das baterias das engenhocas têm limite de duração.

Há gente que finge ler um livro com aspecto de ter sido recém adquirido no próprio aeroporto. Prefiro ficar com os cara de bunda, imaginando como vai ser o vôo, se o avião vai engolir algum urubu no ar, se vai haver turbulência, etc. Já que não tenho com quem conversar e espantar maus pensamentos, resta-me rezar. Serei anônimo também nos céus?

Há o contrapeso do anonimato: a super exposição, às vezes altamente gratificante. É quando você está na sua tribo. Sexta passada fui ao TribOz, fantástica casa de jazz na Lapa cujos proprietários, Jessica e Mike Ryan, não me tratam como anônimo pois sou freqüentador de primeira hora. Assisti a um belo concerto de Cliff Korman que conheci com Ava Araujo em Vitória e lá encontrei o baixista Paulo Russo e um velho amigo, Milton Machado.

Foi também o que aconteceu comigo domingo retrasado quando fui assistir ao show de Wanderson Lopes, o Wandinho no Teatro do Sesi, em Vitória. Além da prazerosa música, encontrei muita gente legal para um papo ligeiro: os músicos Fábio Pestana, Bruno Venturini, Mário Ruy e seu filho Gabriel, Paulo Sodré e sua filha, produtora Júlia, Turi Collura , Neuza Escorel, Alza Alves, Saulo Simonassi, Ava Araujo, Victor Biassutti, o fotógrafo Tom Boechat, o jornalista e cineasta Victor Graise e trupe, o produtor Thiago Espírito Santo, o médico artesão artista Dan Mendonça, o clarinetista jurista Ricardo Dalla, ufa, sem contar todos seus pares.

Prazer maior foi envolver-me num clima amistoso proporcionado pelos violões de Wandinho, sem pop rock, concentrando-se numa atmosfera identificada com as origens de seu instrumento, evocando Villa Lobos, Baden Powell além de suas próprias composições repletas de instigantes ritmos. Foi bom vê-lo com os talentosos Pedro Alcântara e Fabiano Araujo, ambos portando acordeons e contraponteando os seus solos, e com a participação do saxofonista Roger Rocha, o baterista Edu Sjzabrum e o baixista Caco Dinelli.

Depois de tanta festa e boa música, em pleno domingo retrasado e sexta passada, retornei ao meu anonimato.

UM SOPRO DE ESPERANÇA

The hills are alive with the sound of music. Quem não se lembra de Julie Andrews levitando nas montanhas austríacas no filme “The Sound Of Music” (“A Noviça Rebelde”) com música de Richard Rogers & Oscar Hammerstein, onde a governanta Maria é encarregada de sete crianças do viúvo Von Trapp em meio a turbulentos dias no auge do nazismo. Só mesmo a música para conter aquelas crianças consideradas incontroláveis.

Música também é elemento de disciplina, desenvolvimento e cidadania.

Não foi diferente no Brasil: na era Vargas a educação musical alcançou seu auge quando Villa Lobos regeu um coro de 12 mil vozes de jovens no estádio do Vasco da Gama. Agora, através de lei sancionada pelo presidente da República em 2008, o ensino de música passar a integrar o currículo de todas as escolas brasileiras do ensino médio e fundamental, sejam escolas públicas ou privadas, a partir do próximo ano.

Mais além: especificamente no Espírito Santo os presídios capixabas receberão professores de música e até mesmo gravar um CD, conforme noticiou A Gazeta em sua edição do último dia 20: A iniciativa, inédita no país, faz parte do projeto Começar de Novo, mas ainda não tem data para ser colocada em prática.

- "A intenção é fazer um levantamento, entre os detentos, de quem tem talento musical ou interesse em participar do projeto, A Faculdade de Música do Espírito Santo vai oferecer a qualificação. É possível, inclusive, que quando o preso deixar a unidade carcerária ele tenha a oportunidade de se qualificar profissionalmente", explica o juiz Alexandre Farina do projeto Começar de Novo.

No próximo mês deve ser assinado um protocolo de intenções entre a Fundação Ceciliano Abel de Almeida, Faculdade de Música do ES, Tribunal de Justiça do ES, Ministério Público Estadual, Secretaria Estadual de Justiça e o Instituto Brasilis, esse ligado ao governo da Dinamarca.

Antes tarde do que nunca. Eu, e os da minha geração, certamente fomos privilegiados com o ensino da música quando cursávamos o ginasial, equivalente ao segundo grau de hoje. Ex-aluno do Colégio Marista de Colatina, o Ginásio Nossa Senhora do Brasil, jamais poderei esquecer as aulas de Canto Orfeônico com o Irmão Jaime.

Em nosso repertório, além de inevitáveis músicas sacras, tinham presença maior músicas do folclore e também as músicas de sucesso da época. Dispúnhamos de um harmônio, instrumento semelhante ao órgão, além de peças de percussão e flautas doces, podendo a garotada livremente acessá-los para suas criações individuais ou em pequenos grupos.

Se de repente tudo acabou, de repente tudo retorna, dessa vez com mais recursos tecnológicos e metodológicos. O ensino de música nas escolas brasileiras iniciou-se no século 19, através do solfejo. No fim da década de 1930, Antônio Sá Pereira e Liddy Chiaffarelli (acrescentando depois o sobrenome Mignone devido ao seu casamento com o nacionalista Francisco Mingnone) buscaram inovações, surgindo jogos musicais e corporais e o uso de instrumentos de percussão.

Mas Villa Lobos é a grande referência do ensino da música. Também vale registrar a criação do Instituto Villa Lobos em 1970, no Rio de Janeiro, sob a orientação de Reginaldo de Carvalho, o primeiro brasileiro a trabalhar com música eletroacústica, tornando aquele instituto um centro de experimentação musical. Tive a honra, por que não, de integrar seu corpo discente e ter como professor, entre tantos, nosso saudoso Jaceguai Lins.

Mas isso é outra história. Importante é que a música invada as escolas como sopro de esperança de uma nova cidadania.

Rogério Coimbra

NAS ONDAS DAS RÁDIOS.

Na Onda das Rádios.
Rogério Coimbra.

Sugiro que os menores de 60 não leiam esse texto para evitar que eu me embarace. Os nascidos entre os anos 1930 e 1950, um pouquinho para cima, um pouquinho para baixo, viveram intensamente o rádio. Em nossos lares só havia ele como mídia instantânea e o único vínculo com o mundo. A Rádio Nacional, a Rede Globo de então, marcou minha pré adolescência com nomes como o de César de Alencar, César Ladeira, Manuel Barcelos, Paulo Gracindo, Brandão Filho (Balança Mas Não Cai) Heron Domingues (Repórter Esso) Helena Sangirardi (Culinária), Álvaro Aguiar (O Anjo, seguido de Jerônimo, o Herói do Sertão) e o empolgante Jorge Cury narrando futebol.
Em Vitória, já na adolescência, bom era ouvir Eleisson de Almeida, Esdras Leonor, Jairo Maia e Oswaldo Oleari, e as programações de Edir Costa, Jair Batista e Pedro Vidigal. Depois vieram as FMs e a Cariacica saiu na frente com relativa qualidade e em seguida a Tribuna, bem superior à de hoje e finalmente a confusa Universitária. Essa atualmente conseguiu formar uma grade mais sólida e estável e vem a ser a única opção para se buscar programas de qualidade diariamente e, se ela existe no rádio o que interessa é a surpresa, com qualidade.
De segunda à sexta fico tranquilo quanto aos seguintes programas: o autêntico caipira de Fenando Palhares rompendo o dia, às 6 da manhã, o excelente Terra Brasilis com agradáveis surpresas da nossa música popular,às 8h, o Espírito Capixaba e o compromisso de Rogério Borges com a música do Espírito Santo, às 14h,e, o Rota 104, com memoráveis passagens do rock, às 18h. Nas noites de segunda o Clube da Boa Música, de João Paulo e Oswaldo Oleare e o Som do Jazz de Marien Calixte. As manhãs de sábado são irretocáveis, desde 6 h, passando por César Gonçalves até Mr. James. Domingo é o Brasil com o mestre Tarcísio Faustini. Minha outra opção é a noticiosa CBN. Isso para quem ainda ouve rádio, mesmo acima dos 60, porque hoje rádio é sinônimo de internet. Agora é que são elas.
Como curioso e ávido ouvinte, peço vênia aos congênitos da internet para listar alguns endereços na web de minha preferência. São milhões e milhões deles e ninguém está disponível o tempo todo para tais; prefiro eleger um por dia e deixá-lo como fundo de todas as minhas atividades domésticas, pausando-os quando necessário. Há sempre uma agradabilíssima surpresa.
Também gosto de voltar para casa, abrir a porta e ser recebido por uma surpresa sonora. Humildemente revelo meu cardápio e, quem quiser me sugira outros. São eles:
//pt.delicast.com/radio/jazz/ ou //pl.delicast.com/rádio/jazz ( São quase 600 canais)
www.wbgo.org ( muito jazz)
www.sky.fm/ ( bilhões de canais)
Como não posso perder tempo elegi três para eu bem poder aproveitar, principalmente porque eles dão os créditos e alguns exibem as capas das edições.
Radio_Swiss_Jazz (355) /www.radioswissjazz.ch/em (um leque de músicos originais e de europeus com direito à uma deliciosa locução)
www.wguc.org/ (clássicos clássicos, e os poucos conhecidos, com as referências)
http://radioio.com/genres/Classical-Jazz( boa variedade de jazz, swing, vocais, modernos, standards, etc. Como bônus, clássicos.)
Confesso: é muita coisa.
Enfim concluo que para muitos de minha geração, animais são os melhores amigos do homem, a mulher, o seu eterno desejo, e o rádio, a sua melhor companhia.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

FINOS FANTASMAS NA ILHA FANTASMA.

FINOS FANTASMAS NA ILHA FANTASMA.


Rogério Coimbra.


Circula um trio de ilustres fantasmas na ilha de Vitória, cidade considerada mal assombrada, principalmente aos domingos. Mas ninguém precisa ficar apavorado. Há gente que se deslumbra e outros nem sabem o que acontece. Na verdade esses ilustres fantasmas são três extraordinários músicos capixabas que conquistam o mundo, compasso a compasso. Eles são simples humanos de carne e osso e seus nomes são Fabiano Araújo, Marc elo Coelho e Bruno Mangueira.
Bruno Mangueira é um estilista sonoro que figura na lista dos 10 Mais. Simplesmente eu o ouvi de uma calçada num sábado à tarde no Wunderbar, Praia do Canto, Vitória, ao lado do outro competente guitarrista, Vitor Biasutti (a melhor base da ilha e bem real). Sua família, Mangueira, desponta das imediações do Parque Moscoso. Eu o ouvi pela primeira vez no extinto Zanzibar da praia de Camburi num show de Toninho Horta, que o chamou ao palco para uma canja cheia de temperos e elogios. Desde lá fiquei extasiado com aquela textura sonora. Bacharel e mestre em música pela Unicamp hoje ele reside em São Paulo e já tocou com os melhores, como o próprio Toninho Horta, Nelson Ayres, Nailor Proveta, Gilson Peranzzetta; vamos parar por aqui. Lançou seu primeiro CD em 2009 com a participação e notáveis.
Fabiano Araújo é da Ladeira São Bento, no centro de Vitória e já foi estudante de engenharia, craque em matemática. Como não poderia deixar de ser, Salsa, feitor de anjinhos com lira, ou seja, o mestre em estimular jovens talentos, teve o Fabiano o acompanhando naquele extinto restaurante Mão na Massa, na Praia do Canto, depois também conhecido como Mão na Moça. Foi quando o jovem resolveu trocar a matemática pela música, o que dá no mesmo, só que Fabiano trocou seu cérebro pelo coração. É fascinante o clip que pode ser acessado na web, uma gravação do concerto realizado em agosto no Teatro Carlos Gomes, executando músicas de Hermeto. Fabiano quando estudante assistia a um show de Chick Corea em São Paulo quando o pianista desafiou a platéia se alguém tocaria a quatro mãos com ele. Não deu outra, Fabiano lançou-se ao palco e não fez feio, ao contrário.
Marcelo Coelho, o Bamban, destacou-se nos anos 90 tocando na Orquestra de Jazz da Escola Técnica sob a batuta de maestro Célio, aliás, outro ilustre fantasma formador de talentos. Depois de ser aprendiz de David Liebman, discípulo de John Coltrane, Marcelo hoje ministra workshops pelo mundo afora, na Europa, Oriente, ensinando o povo a tocar. É um dos sopros mais vigorosos do Brasil e alhures, obedecendo ao sagrado ensinamento do mestre Coltrane, a love supreme.
Nosso bom músico Salsa observa que essa molecada toda passou pela Escola de Música de Campinas, de onde também veio se materializar entre nós o incrível Pedro Alcântara. O baterista Marco Antônio Grijó, fantasmão sênior, afirma que o trio de músicos acima citado é o que há de mais valoroso na história da música instrumental capixaba neste século XXI.
Bom mesmo é pesquisar e deliciar-se com clips e áudios disponibilizados na internet. Googlem Fabiano Araujo, Marcelo Coelho e Bruno Mangueira. Boa caça aos fantasmas de ouro.
Em tempo: Não seriam eles definitivamente reais e, sim, nós, os fantasmas?


.